Estudo cria glossário científico para aromas da cannabis e contesta papel dos terpenos no cheiro da planta
03 de novembro de 2025

Pesquisadores da Universidade Estadual do Oregon, nos Estados Unidos, desenvolveram um novo glossário para descrever os aromas da cannabis e derrubaram uma crença comum no mercado: o teor de terpenos não é um bom indicador do cheiro de uma variedade da planta. O estudo foi publicado neste mês na revista científica PLOS One.
A equipe reuniu 21 avaliadores sensoriais para analisar 91 amostras de flores de cannabis não queimadas. Cada participante cheirava os exemplares e selecionava os termos aromáticos que melhor descreviam cada um deles. A partir disso, os cientistas criaram um vocabulário composto por 25 descritores oficiais, como “herbal”, “cítrico” e “amadeirado” — os mais frequentes entre as 8.075 marcações feitas.
O objetivo foi estabelecer uma base científica para padronizar a forma como aromas da cannabis são classificados por pesquisadores, empresas e consumidores. Segundo os autores, o glossário não é definitivo, mas representa um passo essencial para a criação de um sistema sensorial confiável e replicável.
Embora a indústria frequentemente associe o cheiro das plantas aos terpenos, os pesquisadores afirmam que essa relação é limitada. A análise química revelou agrupamentos claros de terpenos, mas eles não correspondiam aos perfis aromáticos percebidos pelos avaliadores.
“Os perfis de terpenos sozinhos não preveem o caráter sensorial”, diz o estudo. Apenas o composto terpinoleno mostrou associação consistente com os aromas “cítrico” e “químico”. No geral, nem a concentração total de terpenos nem a presença de compostos sulfurados foram bons indicadores do aroma sentido.
O estudo também observou que flores com alto teor de THC e baixo CBD foram mais descritas como “skunk” (cheiro de gambá), “úmido” e “animal”. Já variedades com mais CBD e menos THC foram associadas a aromas “cítricos”, “frutados” e “adocicados”.
Os autores criticam a dependência do mercado em características como teor de THC e promessas de efeitos, classificadas como imprecisas, e defendem que o aroma é o único preditor confiável de satisfação do consumidor.
O que realmente define o cheiro da cannabis?
Os pesquisadores sugerem que outras classes de compostos — como ésteres, aldeídos e moléculas voláteis ainda pouco estudadas — podem ter papel mais importante no aroma da cannabis, isoladamente ou em combinação com os terpenos.
Eles defendem a ampliação futura do glossário, com mais amostras e inclusão de dados de preferência de consumidores. Também recomendam que fatores como origem da plantação, maturação colheita, secagem, armazenamento e forma de poda sejam incorporados em estudos sensoriais.
O trabalho se soma a outras pesquisas recentes que vêm questionando a forma como a cannabis é rotulada e comercializada. Estudos publicados em 2022 mostraram que os nomes das cepas (“sativas”, “indicas”) são inconsistentes e não correspondem à composição química real. Outro trabalho identificou dezenas de compostos aromáticos antes desconhecidos.
Há ainda indícios de que a pressão do mercado por plantas mais potentes e produtivas está reduzindo a biodiversidade genética da cannabis no mundo.
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