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“A cannabis não pode ser tratada só como produto”, diz Natalia Ferreira, da Fankukies, sobre cuidado, acesso e redução de danos

by Redação

Durante a Cannabis Fair 2026, Natália Ferreira apresentou a proposta da Fankukies, iniciativa que une alimentação funcional, promoção da saúde e acompanhamento terapêutico voltado ao bem-viver

Em meio à expansão acelerada do mercado da cannabis no Brasil, iniciativas periféricas e voltadas à redução de danos seguem levantando questionamentos sobre quem realmente está sendo incluído nesse processo. Durante a Cannabis Fair 2026, realizada em São Paulo, a especialista em promoção da saúde pela Fundação Oswaldo Cruz, cozinheira educadora e redutora de danos, Natália Ferreira, apresentou a proposta da Fankukies, projeto que articula alimentação ancestral, educação em saúde e cuidado terapêutico para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Segundo Natália, a iniciativa nasceu em 2017, a partir de uma experiência pessoal relacionada ao uso abusivo de álcool e outras drogas. Foi nesse contexto que ela desenvolveu um alimento funcional adjuvante (AFA) à base de castanhas, nozes e sementes, pensado como um recurso complementar no cuidado e na promoção do bem-estar.

“Esse alimento surge dentro de uma perspectiva de cuidado e redução de danos. A partir dele nasce a iniciativa Mundo Fankukies, que passa a discutir soberania alimentar enquanto redução de danos, em prol do bem-viver”, afirmou.

Hoje, em 2026, o projeto ganhou novos contornos com a criação da jornada “Semeando o Cuidado”, proposta que oferece acompanhamento terapêutico associado ao uso do alimento funcional adjuvante, realizado em conjunto com a enfermeira Erika Cassanti, especialista em Saúde da Mulher, saúde integrativa, ginecologia natural e acompanhamento terapêutico em promoção do bem-viver.

“Não é apenas um atendimento. É um acolhimento e um acompanhamento contínuo. A ideia é que a pessoa se reconheça como usuária da saúde e desenvolva autonomia para compreender e acessar seus direitos, inclusive dentro do SUS”, explicou.

A proposta da Fankukies dialoga diretamente com debates sobre cuidado integral e promoção da saúde para além da lógica centrada exclusivamente na doença. Para Natália, o modelo atual de assistência ainda é profundamente atravessado pelas desigualdades sociais e econômicas.

“Nesse movimento neoliberal que a gente vive, cuidar da saúde ainda é um privilégio de quem tem alto poder aquisitivo”, criticou.

Ela também aponta que, embora a cannabis medicinal esteja em expansão no Brasil, o acesso permanece restrito para grande parte da população, especialmente quando o tratamento depende exclusivamente da compra de produtos importados ou de alto custo.

“Muitas vezes a pessoa compra o óleo, mas não recebe acompanhamento adequado. O uso terapêutico da cannabis exige aprendizado, tempo e orientação. A gente vem numa perspectiva anterior ao produto, numa perspectiva da alimentação educativa para o cuidado”, disse.

Ao comentar a relação entre cannabis e alimentação ancestral, Natália faz questão de diferenciar suplementação de complementação alimentar. Segundo ela, o foco está na integralidade dos alimentos e não apenas em nutrientes isolados.

“É diferente consumir vitamina C e consumir uma laranja inteira. Assim como é diferente consumir apenas o selênio e consumir a castanha-do-Pará completa, com todos os elementos presentes naquele alimento”, explicou.

Para a especialista, o avanço econômico do setor canábico já era esperado desde os debates em torno da PL 399, proposta que buscava regulamentar o cultivo de cannabis para fins medicinais e industriais no Brasil.

“Desde o começo eu tinha certeza de que seria sobre mercado e não sobre pessoas”, afirmou.

Apesar de reconhecer o crescimento econômico do setor, Natália questiona se a indústria canábica brasileira está comprometida com justiça social, acesso e democratização do cuidado.

“A gente precisa decidir se vai tratar a cannabis como produto ou como parte do cuidado integrativo. Qual relação esse mercado está construindo? Vai reproduzir o mesmo sistema de segregação social que já existe?”, questionou.

A jornada “Semeando o Cuidado” é baseada na proposta da “Cartografia do Bem-Viver”, construída a partir das diretrizes do Plano Nacional de Promoção da Saúde. O objetivo, segundo Natália, é ampliar o entendimento sobre saúde e construir caminhos coletivos de autonomia e bem-estar.

Interessados podem acompanhar o projeto pelo Instagram da Fankukies, no perfil @fankukies, @nat_maravilhosa, @enf.cassanti.

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