Estudo publicado em 2025 reacende debate sobre o uso terapêutico de psicodélicos e expõe limites científicos impostos por décadas de proibição
Pesquisadores publicaram, em 2025, um estudo científico que aponta um possível efeito antienvelhecimento da psilocina, metabólito ativo da psilocibina, ao prolongar a vida de células humanas e aumentar a sobrevida de camundongos idosos. Os resultados reacenderam o debate internacional sobre terapias de longevidade e, ao mesmo tempo, sobre os entraves impostos pelo proibicionismo à pesquisa com substâncias psicodélicas.
A psilocibina é um composto psicoativo presente nos chamados “cogumelos mágicos”. No organismo, ela é convertida em psilocina, substância responsável pelos principais efeitos biológicos e neurológicos observados.
Historicamente, a investigação científica sobre a psilocibina concentrou-se em seu potencial terapêutico para depressão, ansiedade e transtorno de estresse pós-traumático. Nos últimos anos, porém, universidades e centros de pesquisa passaram a explorar também seus impactos em processos celulares mais amplos, incluindo mecanismos ligados ao envelhecimento, inflamação crônica e degeneração tecidual.
O novo estudo foi publicado na revista científica npj Aging, especializada na análise de processos biológicos associados à longevidade e ao envelhecimento saudável.
Segundo os autores do artigo, intitulado Psilocybin treatment extends cellular lifespan and improves survival of aged mice, os efeitos observados vão além da esfera psicológica tradicionalmente associada aos psicodélicos.
“Os achados sugerem que a psilocina pode modular processos fundamentais de envelhecimento celular, possivelmente relacionados ao estresse oxidativo, ao reparo do DNA e à inflamação crônica”, afirmam os pesquisadores na nota metodológica.
Especialistas independentes em biologia celular ouvidos por veículos científicos internacionais destacaram que os dados devem ser interpretados com cautela, já que os testes foram realizados apenas em laboratório e em modelos animais. Ainda assim, reconhecem que os resultados abrem uma nova frente de investigação biomédica.
No curto prazo, a pesquisa tende a ampliar o debate acadêmico sobre o uso de substâncias psicodélicas fora do campo estritamente psiquiátrico e a estimular universidades e laboratórios a reproduzirem os experimentos. Em médio prazo, o tema pode chegar às agências reguladoras, com pedidos de autorização para ensaios clínicos em humanos, além de atrair investimentos no setor de biotecnologia e farmacologia voltados à longevidade.
A longo prazo, caso os efeitos sejam confirmados em humanos, o impacto pode alcançar políticas públicas de saúde e o desenvolvimento de novos medicamentos inspirados nos mecanismos biológicos observados no estudo.
A cronologia da pesquisa indica que, em 2024, tiveram início os testes laboratoriais com células humanas expostas à psilocina. No começo de 2025, camundongos idosos passaram a receber doses mensais de psilocibina. Ainda em 2025, os resultados foram publicados, desencadeando discussões na comunidade científica sobre a necessidade de estudos clínicos em pessoas.
Entre os principais pontos que ainda precisam ser esclarecidos estão a segurança do uso prolongado em humanos, as dosagens adequadas, os possíveis efeitos colaterais em longo prazo e se o aumento da sobrevida estaria associado também à melhora da qualidade de vida e das funções cognitivas.
O estudo surge em um contexto no qual a ciência volta a esbarrar em barreiras legais construídas ao longo do século XX. Classificada como substância proibida na maior parte do mundo, a psilocibina permanece cercada por restrições que dificultam pesquisas, encarecem experimentos e retardam a transformação de evidências científicas em terapias acessíveis.
Para pesquisadores e defensores da reforma das políticas de drogas, resultados como este reforçam a crítica de que o proibicionismo não apenas falhou como estratégia de saúde pública, mas também atrasou décadas de descobertas médicas potencialmente relevantes. A possibilidade de que uma substância historicamente criminalizada esteja associada a mecanismos de proteção celular e longevidade expõe, mais uma vez, o custo científico e humano de tratar drogas como tema policial, e não como questão de saúde, pesquisa e inovação.
