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Microdosagem de psicodélicos já alcança quase 10 milhões de adultos nos EUA, aponta estudo

by Redação

Levantamento da RAND revela prática disseminada apesar da proibição federal e reforça debate sobre regulação, saúde mental e o fracasso das políticas proibicionistas

Quase 10 milhões de adultos norte-americanos utilizaram microdoses de substâncias psicodélicas como psilocibina, LSD ou MDMA em 2025. O dado faz parte de uma nova análise da RAND Corporation, uma das instituições de pesquisa mais influentes dos Estados Unidos, e evidencia que o consumo em pequenas quantidades, voltado à melhora do humor, do bem-estar e da funcionalidade cotidiana, já é uma realidade consolidada no país.

A microdosagem consiste na ingestão de quantidades muito baixas dessas substâncias, insuficientes para provocar alucinações ou experiências psicodélicas intensas, mas suficientes, segundo usuários e estudos preliminares, para gerar efeitos positivos sobre criatividade, foco, ansiedade e saúde mental.

“Existe uma discussão crescente sobre os efeitos da microdosagem na criatividade, no bem-estar e na saúde mental, mas até agora pouco se sabia sobre o quão comum isso era”, afirmou Michelle Priest, pesquisadora da RAND e autora principal do relatório. “Nossos resultados sugerem que, para quem usa psicodélicos, tomar pequenas doses é algo muito relevante.”

De acordo com o levantamento, 69% dos adultos que usaram psilocibina no último ano relataram ter feito microdosagem ao menos uma vez. Entre usuários de MDMA, o percentual foi de 65%, e entre consumidores de LSD, 59%.

No total, a RAND estima que 3,7% da população adulta dos Estados Unidos, o equivalente a cerca de 9,55 milhões de pessoas, microdosaram uma ou mais dessas substâncias em 2025.

O estudo também analisou o consumo geral de psicodélicos. As substâncias mais utilizadas foram cogumelos com psilocibina, com cerca de 11 milhões de usuários adultos, seguidos por MDMA, com 4,7 milhões, cogumelo Amanita muscaria, com 3,5 milhões, cetamina, com 3,3 milhões, e LSD, com 3 milhões.

“Não me surpreendeu ver os cogumelos com psilocibina no topo da lista”, disse Beau Kilmer, codiretor do Centro de Pesquisa em Políticas de Drogas da RAND e coautor do estudo. “Mas fiquei um pouco surpreso em ver outro cogumelo, o Amanita muscaria, tão alto no ranking.”

Os dados reforçam conclusões apresentadas pela própria RAND em um relatório publicado em 2024, no qual a instituição defendia que “este é o momento” para que o governo federal dos Estados Unidos defina como pretende regular a psilocibina e outras substâncias psicodélicas.

Apesar da proibição em nível federal, desde 2019 mais de duas dezenas de cidades e condados passaram a tratar o uso e a posse de psicodélicos como prioridade mínima para as forças policiais. Além disso, o estado do Oregon legalizou o uso supervisionado da psilocibina, enquanto o Colorado avançou ainda mais, permitindo não apenas o uso terapêutico assistido, mas também a posse e o cultivo pessoal de substâncias como psilocibina, DMT e mescalina não derivada do peiote.

Segundo o relatório anterior da RAND, o governo federal tem duas opções: criar um modelo regulatório claro ou simplesmente permitir que o mercado e as políticas estaduais avancem de forma fragmentada.

“Se os formuladores de políticas preferirem um mosaico de leis estaduais, possivelmente incluindo fornecimento comercial e promoção, podem não fazer nada e apenas observar a indústria crescer”, diz o documento. “Mas, quando isso acontece, torna-se muito mais difícil promover mudanças profundas nas regras, dependendo do tamanho e do poder político que esse setor adquira.”

A nova pesquisa foi realizada com 10.122 adultos entrevistados entre 9 de setembro e 1º de outubro de 2025, com margem de erro de 1,33 ponto percentual.

Os números escancaram um paradoxo cada vez mais evidente: enquanto milhões de pessoas recorrem aos psicodélicos em busca de alívio para sofrimento psíquico, melhora de desempenho e qualidade de vida, o Estado segue apostando em um modelo proibicionista que não impede o consumo, apenas o empurra para a informalidade, a insegurança e a falta de controle sanitário.

Assim como ocorre com a cannabis, os dados indicam que a sociedade se move mais rápido do que as leis. E, mais uma vez, a ciência e a realidade social colocam em xeque uma política de drogas baseada na repressão, não na saúde pública, na redução de danos e na autonomia individual.

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