Por Guilherme B. B. Nery, autor da Cartilha da AMBCANN (Associação Médica de Endocanabinologia) – Para não dizer que não falamos das Flores.
A discussão sobre a Cannabis no Brasil, seja para uso medicinal ou adulto, é frequentemente obscurecida por um véu de mitos e paixões. Em meio a debates polarizados, a informação de qualidade, baseada em evidências, torna-se um recurso escasso. É neste cenário que se insere o trabalho de disseminação de conhecimento científico e médico, um esforço fundamental para a saúde pública.
A necessidade de clareza é urgente. Em um contexto onde a desinformação prolifera, a iniciativa de fornecer dados concretos é um imperativo ético e social. Como um dos autores da recente Cartilha da AMBCANN, reitero que:
“É de vital importância a disseminação deste conhecimento pois falta a circulação de um informativo médico científico sobre o tema, que talvez seja o tema mais repleto de desinformação e fake-news”). A lacuna de informações confiáveis permite que práticas arriscadas se perpetuem e que o debate público se afaste das soluções pragmáticas.
O primeiro passo para uma política de saúde eficaz é reconhecer a realidade do consumo. A abordagem proibicionista, que foca apenas na abstinência, ignora a complexidade do comportamento humano e a persistência do uso. Observamos que, para muitos, a interrupção total não é o objetivo imediato. Pelo contrário, a busca por métodos de consumo mais seguros já é uma realidade no cotidiano dos usuários.
“Quem fuma Mac0nha raramente quer parar de fumar, apesar da crescente busca pela transição da via de administração de Cannabis fumada para a via oral ou tópica. Apesar disso precisamos trazer luz e principalmente falar em Redução de Danos!”.
A Redução de Danos, neste contexto, não é um incentivo ao uso, mas sim uma estratégia de saúde pública que visa minimizar os riscos inerentes ao consumo. O maior risco associado ao uso de inflorescências de Cannabis é, inegavelmente, a via de administração por combustão. A queima da matéria vegetal, como detalhado em nossa cartilha, expõe o organismo a uma série de substâncias tóxicas e cancerígenas, comparáveis às encontradas na fumaça do tabaco.
“É Mito! Dizer que Cannabis se fumada por Combustão é menos danosa que Cigarro / Tabacco”
É aqui que a ciência e a tecnologia oferecem a solução mais robusta e eficaz. A transição da combustão para a vaporização é um dos pilares da Redução de Danos no uso inalatório de Cannabis. A vaporização, quando realizada por meio de dispositivos adequados, evita a queima e, consequentemente, a inalação de toxinas.
“No Brasil, a ANVISA Proíbe todos os dispositivos de uso inalatório, e ainda não há nenhum dispositivo regulamentado para vaporização de Cannabis em NENHUM contexto”.
No entanto, a realidade brasileira é marcada por um paradoxo regulatório. (Alguns dispositivos médicos estão sendo criados e testados para esta finalidade (Redução de Danos); E Sim! existem equipamentos médicos para vaporizar Cannabis. Eles já estão em circulação de maneira não regulamentada no Brasil no mercado ilegal:
“Este texto NÃO é um incentivo ao seu uso! Pois muitos destes dispositivos NÃO SÃO SEGUROS.”
A ausência de regulamentação clara e acessível empurra o consumidor para o mercado informal, onde a qualidade e a segurança dos equipamentos e materiais são incertas. A solução para este problema não é um mistério. Ela já está em prática em nações que adotaram uma visão de saúde pública mais progressista. (Mas: Alguns dispositivos já foram registrados e regulamentados como dispositivos médicos na União Européia, Israel e Canadá – Isto precisa ser dito! pois isto é Redução de Danos de verdade, [ao contrário da piteira de vidro]).
A regulamentação de vaporizadores como dispositivos médicos, com padrões de qualidade e segurança rigorosos, é a única forma de garantir que a Redução de Danos seja, de fato, efetiva. É preciso que as autoridades sanitárias brasileiras olhem para a experiência internacional e reconheçam que a ciência já oferece alternativas seguras.
A piteira de vidro, mencionada na citação, é um exemplo de medida paliativa que, embora popular, não resolve o problema central da combustão. A Redução de Danos de verdade passa pela eliminação da fumaça e pela garantia de que o paciente ou usuário tenha acesso a um produto e a um dispositivo de qualidade médica, fiscalizado e testado.
Em suma, o caminho para uma política de Cannabis mais humana e eficaz passa pela informação científica e pela atualização regulatória. Devemos insistir na disseminação do conhecimento, como o que propomos na Cartilha da AMBCANN, e pressionar pela regulamentação de dispositivos que comprovadamente salvam vidas e minimizam danos. A saúde pública agradece.
Sobre o Autor — Dr. Guilherme B. B. Nery – (Dr. Gui)
Dr. Gui é médico Pós Graduado em Medicina Canabinoide – Pós Graduado em Psiquiatria e Pós Graduado em Psicodélicos na Saúde Mental – Com atuação focada em terapias naturais e em modelos de cuidado centrados no acompanhamento longitudinal e tomada de decisão clínica informada por evidências. É um dos autores da Cartilha da AMBCANN (Associação Médica Brasileira de Endocanabinologia), contribuindo com conteúdos voltados à Redução de Danos e ao uso terapêutico de Cannabis, com ênfase em avaliação de risco/benefício, educação do paciente e monitoramento de desfechos. Atua na formação de profissionais de saúde, traduzindo ciência em prática clínica com rigor, responsabilidade e linguagem acessível. Fundador do Instituto Cannabis na Prática ® e criador da Weedy.IA ® a única Inteligência Artificial treinada com resultados de pacientes reais e protocolos individuais por patologias.
