Levantamento do Pew Research Center mostra que percepção nos Estados Unidos contrasta com cenário internacional, onde ainda predomina a visão proibicionista
Uma nova pesquisa do Pew Research Center indica que a maioria dos adultos nos Estados Unidos não considera o uso de cannabis uma questão moral. Segundo o levantamento, 76% dos entrevistados afirmam que consumir a planta é moralmente aceitável ou não envolve julgamento ético.
Desse total, 24% classificam o uso como aceitável e 52% dizem que não se trata de um tema moral. Em contraste, 23% ainda consideram o consumo moralmente errado.
O dado reforça uma mudança cultural significativa no país, onde a cannabis já foi amplamente associada à criminalidade e ao estigma social, mas hoje passa a ser encarada de forma mais pragmática, especialmente em um contexto de legalização em quase todos os estados, seja para uso medicinal ou adulto.
A pesquisa também mostra que, entre diferentes temas avaliados, o uso de cannabis é mais aceito moralmente do que práticas como jogos de azar, pornografia, aborto e até a homossexualidade. Enquanto 76% dos americanos dizem que o consumo da planta é aceitável ou neutro, o índice é de 70% para jogos de azar, 60% para homossexualidade e 52% para aborto.
Outros comportamentos com maior aceitação incluem o uso de métodos contraceptivos, com 91%, e o consumo de álcool, com 84%. Já pornografia aparece com 47% de aceitação, enquanto relações extraconjugais têm apenas 9%.
Apesar da ampla aceitação nos Estados Unidos, o cenário global ainda é marcado por visões mais conservadoras. Em uma amostra que abrangeu 25 países, 52% dos entrevistados afirmaram que o uso de cannabis é moralmente inaceitável.
Entre os nove temas avaliados internacionalmente, apenas relações extraconjugais registraram maior rejeição, sendo consideradas moralmente erradas por 77% dos participantes.
O levantamento também identificou diferenças relevantes relacionadas ao nível educacional. Nos Estados Unidos, pessoas com maior escolaridade tendem a ter menos objeções morais ao uso da cannabis.
Entre os mais escolarizados, 79% consideram o consumo aceitável ou neutro, enquanto entre aqueles com menor nível de educação o índice é de 74%.
Essa diferença é ainda mais acentuada em outros países. No México, por exemplo, 70% das pessoas com menor escolaridade consideram o uso de cannabis moralmente errado, contra 39% entre aquelas com maior nível educacional.
Mesmo em países com maior aceitação, como Canadá e Alemanha, pessoas com menor escolaridade continuam sendo mais propensas a expressar objeções morais.
Os dados analisados incluem respostas de mais de 12 mil adultos nos Estados Unidos, coletadas em 2025, além de cerca de 28 mil entrevistados em outros 24 países, incluindo Brasil, França, Reino Unido e Japão.
Pesquisas anteriores já indicavam essa transformação na percepção pública. Levantamentos recentes mostram que a maioria dos americanos considera a cannabis uma alternativa mais saudável ao álcool e acredita que sua legalização em nível federal pode ocorrer nos próximos anos.
Outro estudo do próprio Pew aponta que quase nove em cada dez americanos apoiam algum tipo de legalização da cannabis, enquanto dados de 2024 indicam que 52% avaliam a legalização como positiva para a economia local e 42% acreditam que ela contribui para um sistema de justiça mais justo.
O conjunto desses dados evidencia uma mudança de paradigma. Nos Estados Unidos, o debate sobre cannabis se afasta cada vez mais de julgamentos morais e se aproxima de questões relacionadas à saúde pública, regulação e justiça social, enquanto boa parte do mundo ainda mantém a planta sob a lógica do estigma e da proibição.
