Pesquisa financiada por órgão federal mostra que substância é frequentemente utilizada no lugar de analgésicos e reforça debate sobre o papel terapêutico da cannabis
Cerca de um em cada três norte-americanos que utilizam canabidiol (CBD) afirma recorrer ao composto como alternativa ou complemento a pelo menos um medicamento convencional. A conclusão é de um estudo financiado por instituições federais dos Estados Unidos e publicado na revista científica Frontiers in Public Health.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Califórnia em San Diego e contou com apoio parcial do National Institute on Drug Abuse (NIDA). Os pesquisadores analisaram dados de uma pesquisa nacional representativa para compreender padrões de uso do CBD entre adultos no país.
Os resultados indicam que aproximadamente 35% dos adultos norte-americanos já utilizaram CBD ao menos uma vez na vida. O composto é um dos principais canabinoides da planta cannabis e não possui efeito psicoativo. Sua popularidade aumentou significativamente após a legalização federal do cânhamo e de seus derivados nos Estados Unidos em 2018.
Entre os 1.008 consumidores de CBD analisados no estudo, os pesquisadores investigaram frequência de uso, formas de consumo e a relação do canabinoide com outros tratamentos médicos.
Os dados mostram que 32% dos usuários afirmaram utilizar o CBD como substituto ou complemento a algum medicamento. A utilização como terapia complementar foi mais comum do que a substituição completa de fármacos.
Segundo os autores do estudo, “milhões de adultos nos Estados Unidos usam CBD como substituto ou complemento para uma ampla gama de condições de saúde”.
Entre os participantes que relataram uso terapêutico do composto, as condições mais frequentemente tratadas incluíram distúrbios musculoesqueléticos e do tecido conjuntivo, como dores articulares, citados por 10,1% dos entrevistados. Em seguida aparecem transtornos psiquiátricos, como ansiedade, mencionados por 7,4%, além de sintomas gerais relacionados à dor ou inflamação.
Os medicamentos mais frequentemente substituídos ou utilizados em conjunto com o CBD foram analgésicos de venda livre, incluindo ibuprofeno, paracetamol e outros anti-inflamatórios comuns.
Apesar do uso disseminado, apenas uma pequena parcela dos participantes relatou problemas de saúde que acreditavam estar relacionados ao consumo de CBD. Segundo o estudo, 2,4% dos usuários disseram ter experimentado algum efeito adverso que atribuíram ao composto.
Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de ampliar as evidências científicas sobre o uso terapêutico do canabinoide, especialmente em relação a dosagem adequada, qualidade dos produtos disponíveis no mercado e possíveis interações com outros medicamentos.
O estudo também destaca que o uso simultâneo de CBD com medicamentos prescritos ou de venda livre pode gerar interações farmacológicas que ainda não são totalmente compreendidas.
Por outro lado, os autores lembram que muitos medicamentos tradicionalmente utilizados para tratar ansiedade ou dor, como psicotrópicos e opioides, também apresentam efeitos colaterais significativos e potencial de dependência.
Nesse contexto, o CBD pode representar uma alternativa terapêutica com menor risco. Segundo os pesquisadores, se o composto ajudar pacientes a reduzir ou interromper o uso de medicamentos com maior risco de efeitos adversos ou dependência, isso pode representar um benefício clínico relevante.
Atualmente, a agência reguladora dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), aprovou apenas um medicamento à base de CBD sintético para o tratamento de formas graves de epilepsia. Os autores do estudo ressaltam, no entanto, que essa aprovação limitada não significa ausência de potencial terapêutico para outras condições.
Segundo eles, o histórico de proibição da cannabis nos Estados Unidos criou barreiras estruturais para a realização de estudos clínicos em larga escala, o que dificulta a produção de evidências regulatórias robustas.
Nos últimos anos, no entanto, o debate sobre cannabis medicinal e canabinoides tem avançado no país. Em dezembro, o presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que determinou a reclassificação federal da cannabis e estabeleceu medidas para ampliar pesquisas científicas e avaliar a inclusão de tratamentos com CBD em determinados programas de seguro de saúde federal.
Paralelamente, outras pesquisas têm apontado que cannabis e seus derivados podem funcionar como alternativa a medicamentos mais potentes. Estudos recentes publicados pela Associação Médica Americana indicam que a cannabis pode atuar como substituto eficaz de opioides no tratamento da dor crônica.
Outros trabalhos científicos também associaram a legalização da cannabis medicinal a reduções nas prescrições de opioides e, em alguns casos, a diminuições nas mortes por overdose.
Para os autores dessas pesquisas, ampliar o acesso regulado à cannabis medicinal e estimular estudos clínicos pode ajudar a desenvolver novas estratégias de tratamento para dor, ansiedade e outras condições de saúde que afetam milhões de pessoas.
