Pesquisa identifica redução de endocanabinoides e oxilipinas em adolescentes com Transtorno Depressivo Maior e reforça a importância de compreender os mecanismos biológicos ligados à cannabis medicinal
Um estudo publicado recentemente por pesquisadores do Hospital Pediátrico da Universidade de Zurique, na Suíça, em parceria com outros centros de investigação pediátrica e com o King’s College de Londres, trouxe novos dados sobre o papel do sistema endocanabinoide na depressão em adolescentes. A pesquisa identificou níveis significativamente mais baixos de endocanabinoides e oxilipinas em jovens diagnosticados com Transtorno Depressivo Maior.
A análise envolveu 82 adolescentes com diagnóstico confirmado de depressão. Ao comparar o plasma desses pacientes com o de um grupo de controle saudável, os pesquisadores observaram deficiências importantes em moléculas derivadas do metabolismo de ácidos graxos poli-insaturados ômega 3 e ômega 6, especialmente compostos relacionados ao DHA, nutriente fundamental para o funcionamento cerebral.
As oxilipinas atuam como moléculas sinalizadoras responsáveis por regular processos inflamatórios no organismo. Já os endocanabinoides, substâncias produzidas naturalmente pelo corpo humano e estruturalmente semelhantes aos canabinoides da planta Cannabis sativa, desempenham papel central na manutenção da homeostase, regulando humor, sono, apetite, memória e percepção de recompensa.
Entre os adolescentes com depressão, os níveis de anandamida, conhecida como “molécula da felicidade”, estavam 14% mais baixos em relação ao grupo de controle, passando de 678 pg/mL para 586 pg/mL. A redução também foi observada na DHEA, com queda de 22%, e no ácido graxo EPA, com diminuição de 14%. Esses achados sugerem uma possível desregulação bioquímica associada ao quadro depressivo.
Embora a pesquisa não estabeleça causalidade, mas sim uma correlação, os resultados reforçam evidências acumuladas ao longo das últimas décadas sobre o envolvimento do sistema endocanabinoide nos transtornos de humor. Atualmente, há mais de uma centena de estudos indexados no PubMed que relacionam desequilíbrios nesse sistema à depressão.
Para os autores, cerca de 40% dos casos de Transtorno Depressivo Maior podem ter origem genética, mas fatores como inflamação crônica, estresse e alterações imunológicas também desempenham papel relevante. A identificação de alterações em moléculas ligadas ao sistema endocanabinoide amplia a compreensão sobre os mecanismos biológicos da doença e abre espaço para novas abordagens terapêuticas.
Os pesquisadores defendem que estudos futuros avaliem a suplementação com ômega 3 e ômega 6 como estratégia para estimular a produção de endocanabinoides e oxilipinas, com potencial impacto na melhora dos sintomas depressivos em jovens. A hipótese se baseia no fato de que essas moléculas são sintetizadas a partir de ácidos graxos que podem ser obtidos pela alimentação.
A descoberta reforça a importância de compreender o sistema endocanabinoide como eixo fundamental da saúde mental. Em um cenário em que a cannabis medicinal vem sendo estudada justamente por sua interação com esse sistema biológico, evidências como essa ajudam a deslocar o debate do campo moral para o científico, priorizando conhecimento, pesquisa e cuidado em saúde.
Ao reconhecer que o organismo humano produz substâncias semelhantes às encontradas na planta, a ciência reafirma que discutir canabinoides é discutir fisiologia, equilíbrio e bem-estar, especialmente em áreas sensíveis como a saúde mental de adolescentes.
