Pesquisa identifica compostos inéditos com ação contra células tumorais e reforça o potencial medicinal da cannabis além dos canabinoides, em contraste com décadas de políticas restritivas.
Uma parte da planta de cannabis historicamente ignorada pela ciência e pela indústria pode se tornar peça-chave no desenvolvimento de novos tratamentos contra o câncer infantil. É o que indica um estudo divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que identificou compostos inéditos nas raízes do cânhamo com potencial efeito antitumoral.
A pesquisa, publicada no ano passado no Journal of Cannabis Research e agora destacada oficialmente pela agência federal, revelou a presença de quatro substâncias da classe dos neolignanos, nunca antes isoladas na planta. Em testes laboratoriais, esses compostos demonstraram capacidade moderada de destruir células de diferentes tipos de câncer pediátrico.
Segundo o USDA, cientistas do Serviço de Pesquisa Agrícola trabalharam em parceria com pesquisadores da Universidade de Illinois e observaram que uma das moléculas, identificada como M4, foi capaz de inibir de forma significativa a sobrevivência das células tumorais analisadas.
Os resultados ainda são preliminares e restritos ao ambiente de laboratório, mas abriram uma nova linha de investigação. Os pesquisadores agora pretendem aprofundar os estudos para compreender como esses compostos atuam no organismo, analisando mecanismos como indução de apoptose, interrupção do ciclo celular e possíveis efeitos colaterais.
Além do impacto médico, a descoberta também tem implicações econômicas e ambientais. Tradicionalmente, o cânhamo é explorado por suas fibras, grãos e extratos como o CBD, enquanto as raízes são descartadas. Com a nova evidência científica, esse cenário pode mudar.
De acordo com Korey Brownstein, químico do Centro Nacional de Utilização Agrícola, o aproveitamento das raízes pode gerar uma nova fonte de renda para agricultores e estimular o cultivo da planta como uma cultura de múltiplos usos. A proposta é transformar o cânhamo em uma commodity completa, com aplicações que vão do papel à indústria farmacêutica.
O próprio estudo ressalta que a cannabis contém centenas de compostos bioativos além dos canabinoides mais conhecidos e que o aproveitamento integral da planta pode reduzir desperdícios e ampliar seu valor econômico.
A divulgação ocorre em um momento em que cresce o número de evidências sobre o potencial terapêutico da cannabis e de seus derivados. Revisões científicas recentes apontam que o canabidiol pode atuar como agente antitumoral e também potencializar a eficácia de quimioterápicos. Outros trabalhos mostram melhora significativa de sintomas em pacientes oncológicos que utilizam cannabis medicinal.
Para pesquisadores e defensores da regulamentação, descobertas como essa expõem a contradição de políticas que, por décadas, criminalizaram a planta e dificultaram o avanço científico. Enquanto novos compostos promissores vêm à tona, pacientes e cientistas ainda enfrentam barreiras legais para pesquisar, prescrever e acessar tratamentos derivados da cannabis.
A raiz do cânhamo, esquecida no solo por gerações, agora se junta a uma longa lista de evidências de que a planta vai muito além do estigma. E reforça o argumento de que proibir não apenas falhou em proteger a sociedade, como também atrasou soluções que podem salvar vidas.
