Donald Trump concede clemência a ex-jogador da NFL condenado por tráfico de maconha enquanto milhares seguem afetados pela criminalização federal
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, concedeu perdão a cinco ex-jogadores da liga de futebol americano National Football League, entre eles Nate Newton, condenado no início dos anos 2000 por tráfico de 175 libras de maconha.
Newton, que integrou o time do Dallas Cowboys nas conquistas de três Super Bowls na década de 1990, foi preso em 2002, no Texas, após a polícia encontrar 10 mil dólares em seu caminhão e a carga de cannabis em outro veículo que o acompanhava. O presidente não comentou publicamente os detalhes do caso ao anunciar a clemência.
Em publicação nas redes sociais, uma conta atribuída a Newton agradeceu diretamente ao presidente pelo perdão e afirmou que o gesto representa uma bênção. A ex-detenta e atual responsável por aconselhar a Casa Branca em temas de clemência, Alice Marie Johnson, também celebrou a decisão, destacando o simbolismo do ato.
Apesar de o perdão ter sido recebido com apoio por parte de defensores da reforma das leis de drogas, a medida reacende uma discussão incômoda nos Estados Unidos. Enquanto figuras públicas recebem clemência, milhares de pessoas seguem presas ou carregam antecedentes criminais por delitos envolvendo quantidades menores de cannabis.
O advogado e ativista Weldon Angelos, que também foi beneficiado por perdão presidencial no primeiro mandato de Trump, afirmou que a decisão é positiva, mas insuficiente. Segundo ele, ainda há pessoas cumprindo penas longas por envolvimento com cannabis em escala inferior à do ex-atleta.
No início de seu segundo mandato, Trump também comutou a prisão perpétua de Ross Ulbricht, condenado por administrar um mercado ilegal na chamada dark web. Ao mesmo tempo, o presidente pressiona o Departamento de Justiça a avançar com a reclassificação da cannabis na Lei de Substâncias Controladas, retirando-a da categoria mais restritiva.
Hoje, a cannabis permanece enquadrada na Tabela I da legislação federal, a mesma que inclui substâncias consideradas sem uso médico aceito e com alto potencial de abuso. A proposta em debate é transferi-la para a Tabela III, reconhecendo aplicações terapêuticas e reduzindo barreiras científicas e econômicas. Ainda assim, a criminalização federal continua produzindo impactos severos, sobretudo para pessoas negras e comunidades de baixa renda.
O contraste é evidente. De um lado, o governo sinaliza abertura para revisar o enquadramento da cannabis. De outro, mantém políticas que impedem, por exemplo, que Washington, D.C., avance na regulamentação da venda recreativa, além de sustentar um sistema penal que historicamente puniu de forma desproporcional determinados grupos sociais.
O caso de Nate Newton expõe essa incoerência estrutural. A mesma substância que hoje movimenta mercados regulados bilionários em diversos estados norte-americanos foi responsável por condenações severas no passado recente. Para ativistas antiproibicionistas, o perdão presidencial é um passo simbólico, mas não resolve o problema central.
A discussão que emerge vai além de uma decisão individual. Trata-se de questionar por que a política de drogas ainda criminaliza condutas que, em grande parte do país, já foram descriminalizadas ou reguladas. E, principalmente, por que a reparação não alcança de forma ampla aqueles que continuam pagando o preço de uma guerra às drogas que muitos consideram fracassada.
Enquanto a reclassificação da cannabis segue sob análise e novos projetos tramitam no Congresso, o perdão concedido a um ex-astro do esporte serve como lembrete de que a justiça penal sobre a cannabis nos Estados Unidos permanece marcada por desigualdades e contradições.
