“Precisamos olhar para os efeitos reais, não só para os números”, afirmou Ryan Vandry em seminário da SAMHSA
Durante um seminário promovido pela Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias dos EUA (SAMHSA), o pesquisador Ryan Vandry, da Universidade Johns Hopkins, desmistificou uma das narrativas mais comuns sobre a legalização da cannabis: o suposto aumento do consumo entre adolescentes. Segundo ele, o uso por jovens permaneceu estável ou caiu em estados norte-americanos que legalizaram a planta.
Com base em dados da Califórnia desde 1996, Vandry afirmou que os índices de uso entre estudantes do 8º, 10º e 12º anos não apresentaram crescimento e, nos últimos anos, chegaram a cair. A fala ocorreu durante a apresentação “Farmacologia comportamental da cannabis – tendências de uso, novos produtos e impactos”, voltada a profissionais da saúde.
Para Vandry, a regulação precisa deixar de focar exclusivamente no teor de delta-9-THC para diferenciar produtos legais (como os de cânhamo) dos ilegais (como a maconha). Ele defendeu que a regulação se baseie nos efeitos reais causados pelos produtos — como comportamento, saúde mental e risco de dependência — e não apenas na concentração de um canabinoide específico.
O pesquisador propôs que a regulação leve em conta a predominância de canabinoides: THC, CBD ou compostos menores como o CBG, que também tem apresentado perfil não psicoativo e semelhante ao CBD.
Ele também comentou a confusão legal entre delta-9 THC, que é proibido, e o delta-8 THC, que é tecnicamente legal quando derivado do cânhamo. Segundo Vandry, em doses mais altas, os dois compostos produzem efeitos praticamente idênticos, mas são tratados de forma muito diferente pela legislação federal.
Outro ponto de destaque foi a limitação dos testes de sobriedade aplicados por policiais. Em pesquisa com voluntários sob efeito de 25 mg de THC, participantes apresentaram sinais de prejuízo psicomotor, mas muitos passaram nos testes tradicionais de campo. E mais: seus níveis de THC no sangue ficaram abaixo dos limites legais, especialmente quando o consumo ocorreu por via oral.
Segundo Vandry, produtos com CBD também podem causar testes positivos para THC em exames de urina, mesmo com doses únicas ou após uso crônico por duas semanas.
Os terpenos, compostos aromáticos presentes na cannabis, também foram tema do seminário. Vandry compartilhou estudos realizados com Ethan Russo, mostrando que o D-limoneno pode reduzir a ansiedade e a paranoia induzidas por altas doses de THC, sem alterar o efeito psicoativo principal. Já o alfa-pineno, apesar de ser promovido pela indústria como agente ansiolítico e broncodilatador, não apresentou efeitos significativos nos testes conduzidos.
Sobre o possível vínculo entre cannabis e esquizofrenia, Vandry foi cauteloso. Ele reconhece a correlação entre uso intenso e início precoce de psicose, mas afirma que a causalidade direta é incerta. Destacou, também, que o consumo de cannabis mais que dobrou nos EUA nos últimos anos, mas as taxas de esquizofrenia seguem estáveis.
O pesquisador alertou ainda para o risco de dependência da cannabis, especialmente entre mulheres, que tendem a desenvolver padrões problemáticos mais rapidamente, apresentam sintomas de abstinência mais intensos e são mais resistentes a tratamentos.
Vandry reforçou que a dosagem total consumida é mais relevante do que a potência dos produtos. Consumidores frequentes tendem a ajustar a quantidade usada conforme a concentração de THC, num processo chamado de autotitulação. Segundo ele, é mais difícil fazer esse ajuste com produtos de alta potência, mas o efeito final ainda depende da dose total.
Outros fatores, como dieta, também influenciam a absorção. Canabinoides consumidos junto a refeições ricas em gordura, por exemplo, são absorvidos em níveis muito maiores do que em jejum — ao contrário da maioria dos medicamentos.
Encerrando a apresentação, Vandry defendeu mais investimentos em pesquisa, padronização e controle de qualidade, além de uma regulação específica para diferentes categorias de produtos. Segundo ele, o atual modelo regulatório ignora a diversidade de efeitos e compostos presentes na cannabis contemporânea.
“Gostaria de ver uma regulação que trate de cannabis rica em THC, em CBD e outros canabinoides de forma separada. A política atual perde o foco ao tratar delta-8 de um lado e delta-9 de outro, como se fossem substâncias de mundos diferentes.”
