Análise química indica viabilidade do uso ritual de fungo tratado, mas pesquisadores ressaltam que hipótese ainda não é prova histórica
Uma nova análise química reacendeu o debate sobre o possível uso de substâncias psicoativas nos rituais dos Mistérios de Elêusis, um dos cultos mais reverenciados da Grécia Antiga. O estudo, publicado em 13 de fevereiro na revista Scientific Reports, sugere que sacerdotisas poderiam ter manipulado o fungo Claviceps purpurea, conhecido como ergot, para produzir compostos alucinógenos utilizados em cerimônias iniciáticas.
A pesquisa investigou se seria possível neutralizar a toxicidade do ergot preservando suas propriedades psicoativas, utilizando apenas técnicas compatíveis com o conhecimento tecnológico disponível há cerca de 3 mil anos, período em que o culto surgiu. Segundo os autores, experimentos laboratoriais demonstraram que uma solução alcalina simples, produzida a partir de cinzas de madeira e água, poderia degradar as proteínas tóxicas do fungo ao longo do tempo.
O processo resultou em subprodutos não tóxicos, entre eles a amida do ácido lisérgico, substância quimicamente semelhante ao LSD, embora menos potente. A conclusão do estudo é que, do ponto de vista químico, seria plausível produzir uma bebida psicoativa não letal com métodos acessíveis à Antiguidade.
A chamada teoria da Elêusis Psicodélica circula desde a década de 1970. Ela ganhou notoriedade com o livro O Caminho para Elêusis: Revelando o Segredo dos Mistérios, publicado em 1978 por Gordon Wasson, Carl Ruck e Albert Hofmann, químico que sintetizou o LSD em 1938 a partir de derivados do ergot. Carl Ruck é também coautor do novo estudo.
Os Mistérios de Elêusis eram cerimônias secretas centradas no culto a Deméter e sua filha Perséfone, associadas à fertilidade e ao ciclo das estações. Originado na cidade de Elêusis, o culto se expandiu pelo mundo greco-romano e atraiu figuras de destaque, incluindo o imperador Augusto. Os rituais eram divididos entre mistérios menores, realizados na primavera, e mistérios maiores, no outono.
Ao final das cerimônias, os iniciados ingeriam uma bebida chamada kykeon, tradicionalmente descrita como composta por cevada e ervas. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que extratos tratados de ergot poderiam ter sido adicionados a essa preparação. Entre as ervas mencionadas em registros antigos está o poejo, que poderia ter ajudado a mascarar o sabor amargo do fungo.
Em 2002, análises realizadas em um vaso cerimonial encontrado em um sítio eleusino na Espanha e na placa dentária de um indivíduo enterrado no local apontaram vestígios de substâncias psicoativas, reforçando a possibilidade de uso ritual. Ainda assim, especialistas alertam que a viabilidade química não equivale à comprovação histórica.
Pesquisadores da área de estudos religiosos destacam que o novo trabalho demonstra apenas que o processamento seria tecnicamente possível dentro de um contexto tecnológico antigo plausível. Não há evidência direta de que tal prática tenha sido de fato adotada nem que os iniciados consumissem substâncias alucinógenas durante os rituais.
Dessa forma, embora a pesquisa amplie o debate sobre os possíveis componentes do kykeon e sobre experiências místicas na Antiguidade, a confirmação histórica do uso deliberado de compostos psicoativos nos Mistérios de Elêusis permanece em aberto.
