Pesquisa da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto indica que composto da cannabis pode reduzir ansiedade, melhorar memória e regular atividade cerebral em modelo experimental
Uma pesquisa conduzida na Universidade de São Paulo, por meio da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, identificou efeitos promissores do canabidiol no tratamento de sintomas associados à esquizofrenia. O estudo investigou o uso repetido do composto em um modelo experimental baseado em alterações no neurodesenvolvimento.
A esquizofrenia é um transtorno mental complexo que afeta funções como pensamento, memória, comportamento e percepção. Uma das principais hipóteses científicas sobre sua origem aponta para alterações no desenvolvimento cerebral ainda durante a gestação, que permanecem silenciosas por anos e se manifestam na adolescência ou na vida adulta.
Para investigar essa hipótese, os pesquisadores utilizaram um modelo animal no qual uma substância é administrada durante a gestação, provocando mudanças no desenvolvimento do cérebro dos filhotes. Na fase adulta, esses animais passam a apresentar características semelhantes às observadas em pacientes com esquizofrenia, como aumento da ansiedade, prejuízo de memória e hiperatividade dopaminérgica.
Com base nesse modelo, o estudo avaliou os efeitos do canabidiol, composto não psicoativo da planta cannabis. Os animais receberam o tratamento por sete dias consecutivos e, posteriormente, foram submetidos a testes comportamentais e análises da atividade neuronal.
Os resultados indicaram que os animais com alterações no neurodesenvolvimento apresentaram níveis mais elevados de ansiedade, déficits de memória e aumento da atividade dopaminérgica. Após o tratamento com canabidiol, houve redução significativa desses efeitos.
Segundo os pesquisadores, o composto contribuiu para diminuir a ansiedade, melhorar o desempenho em testes de memória e normalizar a atividade dopaminérgica, um dos principais sistemas neuroquímicos envolvidos na esquizofrenia.
Apesar dos resultados promissores, os autores destacam que o estudo foi realizado em modelo animal e que ainda são necessárias pesquisas clínicas em humanos para confirmar a eficácia e a segurança do canabidiol nesse contexto.
A dissertação intitulada Efeitos antipsicóticos do tratamento repetido com canabidiol em modelo de esquizofrenia baseado em alterações no neurodesenvolvimento foi desenvolvida pela pesquisadora Lídia Macedo de Andrade, sob orientação do professor Francisco Silveira Guimarães, no Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da instituição. A defesa ocorreu em 2025.
Os achados reforçam o crescente interesse científico no potencial terapêutico dos canabinoides e contribuem para o avanço de novas abordagens no tratamento de transtornos mentais complexos, especialmente em casos onde as opções convencionais apresentam limitações.
