Ensaio clínico publicado em revista da Associação Médica Americana indica que tratamento com psicodélico combinado à terapia cognitivo-comportamental teve resultados superiores aos adesivos de nicotina
Uma única dose de psilocibina combinada com terapia cognitivo-comportamental pode aumentar significativamente as chances de fumantes abandonarem o cigarro a longo prazo. A conclusão é de um estudo clínico publicado na revista científica JAMA Substance Use and Addiction, da Associação Médica Americana (AMA), que aponta o potencial terapêutico do psicodélico no tratamento do transtorno por uso de tabaco.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins e da Universidade do Alabama em Birmingham. O ensaio clínico randomizado comparou dois métodos de tratamento para cessação do tabagismo: uma dose elevada de psilocibina associada à terapia cognitivo-comportamental e o uso de adesivos de nicotina aprovados pela agência reguladora dos Estados Unidos, também combinados com o mesmo tipo de acompanhamento terapêutico.
O estudo envolveu 82 fumantes adultos considerados psiquiatricamente saudáveis. Todos os participantes participaram de um programa de 13 semanas de terapia cognitivo-comportamental para parar de fumar. Um grupo recebeu uma única dose alta de psilocibina, equivalente a 30 mg para cada 70 kg de peso corporal, enquanto o outro utilizou adesivos de nicotina durante um período de oito a dez semanas.
Ao final de seis meses de acompanhamento, os pesquisadores observaram diferenças significativas entre os grupos. Entre os participantes que receberam psilocibina, 40,5% mantiveram abstinência prolongada confirmada por exames bioquímicos. No grupo tratado com adesivos de nicotina, esse índice foi de 10%.
Os dados também mostraram que 52,4% dos participantes que receberam psilocibina permaneceram sem fumar ao longo de sete dias consecutivos no momento da avaliação final, enquanto entre os usuários de adesivos de nicotina o índice foi de 25%.
De acordo com os pesquisadores, os participantes que receberam psilocibina apresentaram mais de seis vezes maior probabilidade de manter abstinência prolongada em comparação com o tratamento convencional. Também tiveram mais de três vezes mais chances de permanecer sem fumar durante o período de sete dias analisado.
Além da maior taxa de abandono do cigarro, o estudo aponta que os participantes do grupo tratado com psilocibina reduziram em cerca de 50% o número médio de cigarros fumados por dia entre a data definida para parar de fumar e o acompanhamento após seis meses.
Os autores afirmam que os resultados reforçam evidências crescentes de que terapias assistidas por psicodélicos podem ter eficácia no tratamento de diferentes tipos de dependência.
Segundo o artigo, a psilocibina atua de forma diferente dos medicamentos tradicionais usados no tratamento do tabagismo. Em vez de atuar diretamente nos receptores cerebrais relacionados à nicotina, a substância pode promover mudanças psicológicas mais amplas, como maior flexibilidade cognitiva e transformações na percepção de si mesmo.
Essas alterações, segundo os cientistas, podem ajudar pacientes a modificar padrões de comportamento ligados ao vício e contribuir para benefícios terapêuticos também observados em tratamentos experimentais para depressão e ansiedade.
Diante dos resultados, os autores defendem que a psilocibina seja considerada uma candidata promissora para tratamentos contra o tabagismo e que avance no processo regulatório conduzido pela agência norte-americana FDA.
O interesse científico pelos psicodélicos tem crescido nos últimos anos, impulsionado por resultados de ensaios clínicos e por movimentos de descriminalização em diferentes estados norte-americanos.
Uma análise da RAND Corporation apontou que cerca de 10 milhões de adultos nos Estados Unidos relataram ter feito microdosagem de substâncias psicodélicas como psilocibina, LSD ou MDMA em 2025.
Revisões científicas recentes também indicam que o uso de psilocibina tem aumentado no país, impulsionado tanto por pesquisas clínicas quanto por debates sobre seu potencial terapêutico. Ao mesmo tempo, pesquisadores apontam que a classificação federal dessas substâncias como drogas de alto controle ainda representa um obstáculo para estudos mais amplos.
Outras pesquisas publicadas nos últimos anos também sugerem que terapias assistidas por psicodélicos podem ajudar no tratamento de diferentes transtornos relacionados ao uso de substâncias.
Estudos anteriores já indicaram reduções significativas no consumo de álcool entre pacientes com transtorno por uso de álcool submetidos a psicoterapia assistida por psilocibina. Há ainda pesquisas que apontam potencial da substância para auxiliar no tratamento da dependência de opioides e outras drogas.
Instituições de pesquisa dos Estados Unidos também têm ampliado o financiamento para estudos na área. O National Institutes of Health destinou recentemente recursos para pesquisas sobre o uso de psicodélicos no tratamento de transtornos relacionados ao uso de metanfetamina, enquanto o National Institute on Drug Abuse anunciou novos investimentos para investigar a relação entre psicodélicos e dependência química.
Mesmo com o avanço científico, especialistas ressaltam que o uso terapêutico da psilocibina ainda depende de novas pesquisas e de mudanças regulatórias para que possa ser incorporado de forma segura e controlada aos tratamentos médicos.
