Relato clínico publicado na Frontiers in Psychiatry acompanha dois pacientes por até seis anos e reacende debate sobre acesso precoce à cannabis medicinal
Pesquisadores alemães documentaram a evolução clínica favorável de duas crianças com síndrome de Tourette submetidas a tratamento prolongado com medicamentos à base de cannabis. O estudo, publicado na revista científica Frontiers in Psychiatry, acompanhou dois meninos que iniciaram a terapia aos oito e 12 anos de idade e seguiram em tratamento por cinco a seis anos com formulações ricas em tetrahidrocanabinol, o THC.
Os pacientes utilizaram extratos orais e também flores vaporizadas prescritas para uso medicinal. Ao longo do acompanhamento, os médicos observaram redução significativa na gravidade dos tiques motores e vocais, melhora em comorbidades associadas como dificuldades de atenção e comportamentos obsessivo compulsivos, além de avanço geral na qualidade de vida.
Segundo os autores, o desempenho escolar permaneceu estável ou até mesmo favorável durante o período analisado. Os dois pacientes apresentaram bom rendimento acadêmico e funcionamento cognitivo preservado, contrariando temores frequentemente associados ao uso de THC em idades precoces.
O relatório clínico não registrou efeitos adversos graves atribuíveis à terapia com cannabis. Não houve surgimento de quadros de ansiedade severa, psicose ou transtorno por uso de cannabis, nem relatos de perda de motivação ou prejuízos sociais relacionados ao tratamento.
A pesquisa contou com a participação da neurologista e psiquiatra Kirsten Müller-Vahl, referência europeia no estudo da síndrome de Tourette e do potencial terapêutico dos canabinoides. Ligada à Hannover Medical School, na Alemanha, e ao Departamento de Bioética da Universidade Médica de Varsóvia, na Polônia, Müller-Vahl tem publicado estudos que investigam o uso de THC em pacientes com tiques severos, inclusive em populações jovens.
Os autores reconhecem que se trata de um relato baseado em apenas dois casos, o que impede generalizações amplas. A própria evolução natural dos tiques ao longo da adolescência e possíveis efeitos placebo não podem ser totalmente descartados. Ainda assim, destacam que, diante de sintomas graves e resistentes às terapias convencionais, medicamentos com THC podem ser considerados antes de intervenções mais invasivas, como a estimulação cerebral profunda.
A publicação reacende o debate sobre limites etários impostos por legislações nacionais. Em Portugal, por exemplo, o uso de THC para fins medicinais é vedado a menores de 25 anos, o que, na prática, inviabilizaria abordagens semelhantes às descritas no estudo. A restrição etária tem sido questionada por especialistas que defendem decisões baseadas em critérios clínicos individualizados e evidências científicas.
A síndrome de Tourette é um transtorno do neurodesenvolvimento que se manifesta geralmente na infância, caracterizado por tiques motores e vocais involuntários, com intensidade variável ao longo do tempo. Em ambiente escolar, os sintomas podem impactar concentração, desempenho acadêmico e interação social, muitas vezes expondo crianças e adolescentes à estigmatização e ao bullying.
Comorbidades como déficit de atenção, hiperatividade, ansiedade e comportamentos obsessivo compulsivos são frequentes e podem agravar o sofrimento emocional. Nesse contexto, alternativas terapêuticas seguras e eficazes são fundamentais para reduzir impactos no desenvolvimento e na autoestima.
Embora ainda sejam necessários estudos clínicos de maior escala, os dados apresentados reforçam a importância de ampliar a pesquisa sobre cannabis medicinal em neurologia pediátrica. Em vez de interditar o debate por receios históricos, especialistas defendem que o tema seja tratado com base em evidências, ética médica e foco na qualidade de vida dos pacientes.
