Home » Escola de cannabis medicinal nasce após decisão do STJ e aposta na formação técnica do setor

Escola de cannabis medicinal nasce após decisão do STJ e aposta na formação técnica do setor

by Redação

Iniciativa da Accura prevê cursos híbridos a partir de 2026 e mira profissionalização diante da possível regulamentação do cultivo no Brasil

A associação Accura anunciou a criação de uma escola voltada à formação técnica e à educação sobre cannabis medicinal, com início previsto para o primeiro semestre de 2026. A iniciativa surge na esteira da decisão do Superior Tribunal de Justiça que autorizou o cultivo de cannabis para fins medicinais no país e determinou que o Ministério da Agricultura e Pecuária e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária regulamentem a produção em escala industrial.

A decisão judicial abriu um novo capítulo na política de drogas brasileira ao reconhecer a necessidade de regulamentação do cultivo medicinal. No entanto, o entendimento inicial deixou as associações de pacientes fora do escopo da autorização, o que gerou críticas e mobilização do setor. O debate foi retomado após a posse do diretor Thiago Campos na quinta diretoria da Anvisa, em setembro, quando representantes de entidades se reuniram com a agência para discutir um modelo regulatório mais abrangente.

Para a Accura, o momento exige preparo técnico. A presidente da entidade, Paula Cardoso Zomignani, avalia que a possível regulamentação cria uma demanda imediata por qualificação profissional em toda a cadeia produtiva da cannabis medicinal. Segundo ela, ainda não existe mão de obra estruturada para atender um mercado que pode se expandir rapidamente caso as normas avancem.

Criada em 2017, a Accura nasceu da experiência direta com a produção artesanal de óleo para atender necessidades familiares. Ao longo dos anos, a associação organizou mutirões e ações educativas voltadas ao cultivo doméstico e ao uso medicinal da planta, fortalecendo a autonomia de pacientes diante das dificuldades de acesso. A vivência prática resultou no desenvolvimento de metodologias próprias e na publicação de um livro sobre técnicas de extração em baixas temperaturas.

Agora, a entidade afirma que pretende concentrar esforços na educação, em vez de ampliar sua atuação como associação produtora. A proposta da escola é capacitar pacientes, associações e profissionais interessados em atuar no setor, oferecendo formação técnica baseada em experiência acumulada e conhecimento científico.

O projeto será estruturado em cinco frentes principais: formação do paciente, associativismo, cultivo, técnicas de extração e mercado de oportunidades. A ideia é abordar desde o plantio e o manejo da planta até aspectos regulatórios e possibilidades de inserção profissional em um setor que ainda está em consolidação no Brasil.

O modelo será híbrido, com aulas online para alcançar estudantes de diferentes regiões e workshops presenciais na sede da Accura, que conta com estrutura de cultivo e laboratório. A plataforma digital está em desenvolvimento e as gravações já começaram. O lançamento está previsto para o primeiro semestre de 2026.

Em um cenário marcado por disputas regulatórias e incertezas institucionais, a criação de uma escola dedicada à cannabis medicinal sinaliza um movimento de organização e profissionalização da sociedade civil. Para pacientes e ativistas, investir em formação é também uma estratégia de fortalecimento diante de um histórico de criminalização que, por décadas, impediu o avanço científico e o acesso seguro a tratamentos à base da planta.

You may also like