Dirijo: uma reflexão sobre uso, tempo e presençaHouve um tempo em que o uso não isolava.Chamavam de dirijo. Era parte do dia, da conversa, do descanso. Não havia pressa em separaro momento do uso do restante da vida. Ele acontecia entre pessoas, no intervalo das atividades,no ritmo mais lento de quem ainda não precisava correr tanto.O tempo passava diferente — mais diluído, mais compartilhado. Não era fuga. Era presença.Depois veio a proibição. E, com ela, algo menos visível: a mudança do uso.O que antes era coletivo foi se tornando individual. O que fazia parte da convivência passou,muitas vezes, a acontecer em silêncio. O que era encontro, em alguns contextos, virou excesso. O que era pausa, virou escape.Não foi só a substância que mudou de lugar. Foi o modo de usar.Hoje, quando a cannabis chega ao consultório, ela já carrega essa história. Chega como dúvida,como tentativa, como última alternativa, às vezes. E a medicina precisa começar de onde opaciente está — não de onde gostaríamos que estivesse.Na prática clínica, falamos de dose, de indicação, de evidência. E isso é necessário, mas não ésuficiente.Porque o cuidado não se organiza apenas em miligramas. Ele se constrói no contexto, naescuta, na forma como aquele uso se insere — ou desorganiza — a vida de alguém.Nem todo uso é terapêutico. Nem todo cuidado começa com a prescrição.Há pacientes que precisam reorganizar o sono antes de ajustar a dose. Outros, reduzirexcessos antes de pensar em indicação. Alguns talvez nunca precisassem de cannabis —enquanto outros, por muito tempo, não tiveram acesso a ela como opção.O desafio não é apenas saber prescrever. É saber quando, como e para quem.Talvez o maior deslocamento não esteja na substância, mas no sentido.Hoje, tentamos reinserir no cuidado algo que, em algum momento, já esteve na vida — mas deoutra forma: mais compartilhada, menos isolada, menos urgente.Talvez não seja sobre voltar ao que era, mas sobre entender o que se perdeu no caminho e, apartir disso, construir um uso que faça sentido — não só no tratamento, mas na vida.Dirijo na mente, entre trabalhos e risos.Tempo que antes passava junto.Hoje, mais rápido. Mais só.E, no meio disso, o cuidado tentando reencontrar lugar.Entre o uso e o cuidado, existe o tempo — e é nele que a medicina precisa aprender aescutar.Sobre o autorDr. Matheus de Paula Ramos BatistaMédico generalista (CRM-SP 287010), com atuação em Medicina de Família e Comunidade e medicinaendocanabinoide. Atua com foco em cuidado contínuo, individualizado e baseado em evidências, integrando avaliaçãoclínica, acompanhamento longitudinal e terapias canabinoides quando indicadas.Instagram: https://www.instagram.com/drmatheusdepaula Endocanabinologia: https://www.instagram.com/voltarsseContato: https://wa.me/5511932274101Avaliações: https://share.google/FZXTCjjCGw4nH0qHT