Universidade Federal do Rio Grande do Norte se torna a primeira instituição do país autorizada pela Anvisa a plantar e processar cannabis para pesquisa científica
A Universidade Federal do Rio Grande do Norte iniciou o plantio de cannabis para fins científicos após obter autorização inédita da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para o cultivo controlado e o processamento da planta. É a primeira vez que uma instituição brasileira conquista esse aval formal para pesquisar a cannabis desde a semente até a extração dos compostos.
O cultivo já começou no Instituto do Cérebro da UFRN, onde são desenvolvidos projetos que avaliam a eficácia e a segurança de diferentes combinações de fitocanabinoides. Na manhã desta sexta-feira, o reitor José Daniel Diniz Melo visitou o laboratório e acompanhou de perto as primeiras etapas do processo.
Atualmente, o instituto mantém mudas com diferentes perfis de fitocanabinoides. O professor Claudio Queiroz explicou que o protocolo inclui plantio, podas voltadas à clonagem, floração e, por fim, a extração dos compostos que serão analisados nas pesquisas. Todo o cultivo ocorre em ambiente fechado e controlado, conforme exigido pela autorização sanitária.
As pesquisas se concentram em áreas estratégicas da cannabis medicinal, como epilepsia, transtorno do espectro autista, distúrbios do sono, dor crônica e zumbidos. A proposta é produzir evidências científicas nacionais sobre eficácia e segurança, reduzindo a dependência de dados internacionais e fortalecendo a autonomia científica brasileira.
Para o reitor Daniel Diniz, o início do cultivo representa um marco histórico. Segundo ele, após um processo rigoroso junto à Anvisa, ver a cannabis sendo cultivada oficialmente dentro de uma universidade pública simboliza um avanço decisivo para a ciência e para a consolidação do uso medicinal da planta no país.
O processo para obtenção da autorização teve início em 2020. A Anvisa permitiu à universidade importar, armazenar, germinar sementes e realizar o cultivo indoor para fins exclusivamente científicos. O material extraído será utilizado em estudos pré-clínicos voltados ao manejo de sinais e sintomas associados a distúrbios neurológicos e psiquiátricos.
O movimento da UFRN ocorre em um contexto em que pacientes brasileiros ainda dependem majoritariamente da importação de produtos à base de cannabis ou de decisões judiciais para garantir acesso ao tratamento. Ao autorizar o cultivo acadêmico, o Estado brasileiro dá um passo concreto na direção da produção de conhecimento local e da construção de políticas públicas baseadas em evidências, e não em estigmas históricos.
A iniciativa também reforça o papel das universidades públicas como protagonistas na superação do atraso regulatório que ainda limita o desenvolvimento pleno da cannabis medicinal no Brasil.
