No Dia Mundial de Combate ao Câncer (4/2), terapias complementares ganham espaço ao colocar o bem-estar do paciente no centro do cuidado
No Dia Mundial de Combate ao Câncer, celebrado em 4 de fevereiro, a cannabis medicinal surge como um dos principais ganchos para discutir um tema que ainda recebe pouca atenção no tratamento oncológico: a qualidade de vida. Mais do que combater a doença, o desafio está em garantir que o paciente consiga atravessar esse processo com menos dor, mais autonomia e maior equilíbrio físico e emocional.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que o número de novos casos de câncer no mundo deve passar de cerca de 20 milhões, em 2022, para 35,3 milhões em 2050, um crescimento superior a 77% em menos de três décadas. O avanço está associado ao envelhecimento da população, ao crescimento demográfico e à maior exposição a fatores de risco como tabagismo, álcool, obesidade e poluição do ar.
Nesse cenário, os cuidados paliativos e as terapias complementares ganham relevância. Diferentemente do senso comum, cuidados paliativos não significam abandono do tratamento, mas uma mudança de foco. O objetivo passa a ser o controle dos sintomas, o respeito às escolhas individuais e a preservação da dignidade em todas as fases da doença. No Brasil, no entanto, essa abordagem ainda é pouco estruturada.
Dados divulgados em 2022, a partir de uma pesquisa realizada em 2021 e publicada no The Journal of Pain and Symptom Management, colocam o Brasil na 79ª posição em um ranking global que avalia a qualidade da morte e a oferta de serviços de cuidados paliativos. O levantamento ouviu 181 especialistas de 81 países e aponta falhas no acesso, desigualdades regionais e limitações na oferta de suporte adequado para pessoas com doenças graves.
É nesse contexto que a cannabis medicinal tem sido incorporada como estratégia terapêutica complementar, especialmente no cuidado paliativo oncológico. O uso de medicamentos à base de canabinoides vem sendo associado ao alívio da dor, à redução de náuseas e vômitos, à melhora do apetite, do sono e ao controle da ansiedade, fatores que impactam diretamente a qualidade de vida do paciente.
A experiência de Petra Jacobino, 39 anos, moradora de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, ilustra esse movimento. Diagnosticada com câncer de mama avançado em 2022 e em cuidados paliativos desde a confirmação de metástase em 2024, ela convive com dores persistentes, neuropatia, queda da imunidade e ansiedade.
“Como o efeito do medicamento à base de cannabis é rápido, consigo tomar e já me sentir mais disposta para as atividades do dia. Sinto mais ânimo e, principalmente, mais controle da ansiedade”, relata.
Desde o diagnóstico, a cannabis medicinal integra seu cuidado como terapia complementar. O uso de óleos à base de CBD e THC tem contribuído para reduzir sintomas físicos e emocionais, permitindo mais funcionalidade no cotidiano e maior autonomia para lidar com a rotina do tratamento.
“A cannabis medicinal tem sido utilizada como estratégia complementar no cuidado paliativo, sobretudo no manejo da dor, da ansiedade, das náuseas e de outros efeitos colaterais comuns no tratamento oncológico. O objetivo não é suprimir emoções, mas oferecer conforto e condições para que o paciente viva esse processo com mais clareza e autonomia”, afirma a médica Mariana Maciel, especialista em medicina canábica e à frente da biofarmacêutica canadense Thronus Medical.
Falar de cannabis medicinal no tratamento do câncer também é falar de um cuidado mais amplo, que considera saúde mental, sono, apetite e a capacidade de manter vínculos e escolhas. Quando bem estruturados, os cuidados paliativos associados a terapias complementares permitem que o tratamento não seja apenas suportável, mas vivido com dignidade.
Dois dias após o Dia Mundial de Combate ao Câncer, em 6 de fevereiro, Petra completa 40 anos. A data simboliza mais do que um aniversário. Representa a reafirmação de que viver bem continua sendo uma prioridade e que a cannabis medicinal pode ter um papel relevante na construção de um cuidado mais humano, centrado no paciente e na qualidade de vida.
