Austrália publica primeira diretriz clínica para psicoterapia assistida por MDMA no tratamento do TEPTDocumento aprovado por órgão nacional de saúde estabelece critérios rigorosos e pode influenciar debates regulatórios em outros países
A Monash University anunciou a publicação da primeira diretriz clínica do mundo voltada ao uso apropriado da psicoterapia assistida por MDMA no tratamento do Transtorno de Estresse Pós-Traumático. O documento foi aprovado em 12 de fevereiro de 2026 pelo National Health and Medical Research Council e estabelece parâmetros técnicos para orientar profissionais de saúde na aplicação da terapia.
A diretriz foi desenvolvida pelo Centre for Medicine Use and Safety e pelo Neuromedicines Discovery Centre, ambos vinculados à universidade australiana. É a primeira orientação global construída com base no método GRADE, considerado padrão internacional na avaliação da qualidade das evidências científicas e na formulação de recomendações clínicas.
A publicação ocorre após a Austrália ter reclassificado, em 2023, o MDMA de substância proibida para substância controlada, permitindo que psiquiatras autorizados utilizem o composto no tratamento de TEPT fora de ensaios clínicos. Em novembro do ano passado, o governo anunciou que a terapia poderá ser reembolsada para veteranos elegíveis, ampliando o acesso dentro de critérios regulatórios definidos.
De acordo com o professor Simon Bell, diretor do Centre for Medicine Use and Safety e presidente do comitê responsável pela diretriz, o documento reúne quatro recomendações formais, 21 declarações de boas práticas e 15 recomendações de pesquisa. As orientações levam em conta benefícios e riscos, grau de certeza das evidências disponíveis, valores dos pacientes, recursos, equidade, aceitabilidade e viabilidade da implementação.
A diretriz não classifica a terapia assistida por MDMA como tratamento de rotina. O uso é recomendado apenas para adultos com diagnóstico de TEPT há pelo menos seis meses, que apresentem sintomas moderados ou graves no último mês e que já tenham passado por tratamento de primeira linha baseado em evidências, sem resposta adequada. Também é exigido baixo risco de reexposição ao trauma durante o processo terapêutico.
A gerente do projeto, Alene Yong, destacou que quase metade das pessoas com TEPT não responde satisfatoriamente aos tratamentos convencionais, o que impulsiona a busca por novas abordagens. Ao mesmo tempo, ela ressalta que ainda existem lacunas entre os dados obtidos em pesquisa e a prática clínica cotidiana, o que exige prudência na implementação.
A diretriz recomenda que a terapia não seja aplicada em grupos excluídos de ensaios clínicos por razões de segurança, como gestantes, lactantes, pessoas com doenças cardiovasculares, transtornos psicóticos, sofrimento relacionado à ideação suicida ou pacientes que utilizem medicamentos com potencial de interação com o MDMA.
O documento é direcionado principalmente a profissionais envolvidos no manejo do TEPT, incluindo médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, farmacêuticos e terapeutas. Uma versão complementar voltada a pacientes e familiares está em desenvolvimento.
A iniciativa surge em meio à expansão global do debate sobre terapias assistidas por psicodélicos, tema que também começa a ganhar espaço no Brasil, tanto na academia quanto em discussões regulatórias. Ao estabelecer critérios técnicos claros, a diretriz australiana pode servir de referência para outros países que avaliam caminhos para incorporar, de forma segura e baseada em evidências, tratamentos inovadores para transtornos mentais resistentes.
