Declaração de Cory Booker reforça críticas à política de drogas ao evidenciar incoerências regulatórias
Um dos principais defensores da legalização da cannabis no Congresso dos Estados Unidos, o senador Cory Booker utilizou o humor para escancarar uma contradição histórica da política de drogas: a criminalização da maconha enquanto substâncias amplamente consumidas e potencialmente prejudiciais seguem liberadas.
Durante um evento recente, o parlamentar afirmou que, enquanto lidera esforços para retirar a cannabis da lista de substâncias proibidas em nível federal, talvez o governo devesse “regular” as batatas fritas do McDonald’s. “Eu sou o líder no Senado pela retirada da maconha da lista de substâncias controladas, mas talvez a gente devesse classificar as batatas fritas do McDonald’s. Não sei o que colocam nelas. Acho que é uma substância ilegal”, ironizou.
A fala aconteceu durante a divulgação de seu livro “Stand”, quando Booker compartilhou uma história pessoal sobre seu motorista, que o acompanha desde sua época como prefeito de Newark. Segundo ele, o funcionário já reconhece, apenas pelo olhar no retrovisor, quando o senador está prestes a ceder ao desejo por fast food.
No relato, Booker contou que, ao passar por uma unidade da rede, o motorista entrou diretamente no drive-thru. O senador pediu duas porções de batata “com vergonha na voz” e descreveu a cena comparando sua reação à de um personagem de O Senhor dos Anéis, chamando o alimento de “meu precioso”.
Apesar do tom descontraído, a comparação evidencia um ponto central do debate antiproibicionista: a seletividade das políticas públicas. Enquanto produtos como alimentos ultraprocessados, associados a uma série de problemas de saúde pública, são amplamente comercializados, a cannabis segue, em muitos contextos, tratada como questão criminal.
Booker já havia feito observação semelhante em 2019, quando sugeriu, também de forma irônica, que certos alimentos poderiam ser considerados mais “viciantes” do que a maconha. A crítica dialoga com uma visão crescente entre especialistas de que a guerra às drogas falhou em seus objetivos e produziu impactos sociais desproporcionais.
No campo legislativo, o senador segue atuando para mudar esse cenário. Ele é autor de propostas que buscam retirar a cannabis da lista de substâncias controladas e defende uma regulação que corrija injustiças históricas, além de permitir o desenvolvimento econômico de um setor que ainda enfrenta barreiras estruturais.
A provocação de Booker, embora bem-humorada, reforça um debate cada vez mais presente: por que substâncias com diferentes perfis de risco recebem tratamentos tão distintos por parte do Estado.
