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Estudo científico expõe distorção nas leis antidrogas e aponta que cannabis é muito menos nociva do que a legislação afirma

by Redação

Pesquisa internacional indica que políticas baseadas em punição ignoram evidências científicas, ampliam danos sociais e mantêm substâncias como a maconha criminalizadas apesar de menor risco e potencial terapêutico.

Uma nova revisão científica publicada em dezembro de 2025 na revista Harm Reduction Journal reforça o que pacientes, pesquisadores e movimentos antiproibicionistas denunciam há décadas: as leis sobre drogas, especialmente nos Estados Unidos, não refletem a realidade científica sobre os riscos das substâncias e acabam produzindo mais danos do que proteção à saúde pública.

Segundo o estudo, as categorias legais criadas pela Lei de Substâncias Controladas, em vigor desde 1970, classificam drogas com base em critérios políticos e morais, e não em evidências. A cannabis, por exemplo, permanece há décadas no nível mais restritivo da legislação norte-americana, ao lado de substâncias consideradas sem valor medicinal e de alto risco, apesar de inúmeros estudos demonstrarem o contrário.

A pesquisa reuniu 17 especialistas, entre médicos, cientistas e pessoas com experiência no uso de substâncias, que avaliaram 19 drogas diferentes a partir de 18 critérios, como risco de overdose, danos à saúde a longo prazo, impacto familiar, custos econômicos e efeitos na segurança pública. O resultado mostrou que a política de drogas vigente “contradiz frontalmente as avaliações técnicas sobre os reais danos causados pelas substâncias”.

No ranking produzido pelos pesquisadores, a cannabis aparece entre as drogas com menor potencial de prejuízo, muito distante de opioides sintéticos como o fentanil, considerado o mais nocivo, e também atrás do álcool, que sequer é incluído no sistema federal de controle de drogas nos EUA, apesar de causar milhões de mortes no mundo todos os anos.

O estudo aponta ainda que quase todas as drogas geram mais danos às próprias pessoas que as consomem do que à sociedade, o que desmonta a lógica de criminalização como forma de “proteção coletiva”. Para os autores, insistir em repressão e encarceramento, em vez de investir em cuidado, informação e redução de danos, ajuda a explicar o aumento contínuo das mortes por overdose.

“Os recursos deveriam ser direcionados à saúde e ao bem-estar, não à prisão”, afirma o artigo.

A manutenção da cannabis como substância altamente proibida, enquanto drogas comprovadamente mais perigosas recebem tratamento legal mais brando, é citada como exemplo claro de incoerência regulatória. Psilocibina e maconha, segundo os pesquisadores, apresentam riscos relativamente baixos e benefícios terapêuticos documentados, mas continuam sujeitas à punição em diversos países.

Para o grupo, uma política baseada em evidências poderia favorecer medidas já comprovadas, como distribuição de naloxona, testes para detecção de fentanil, ampliação de serviços de saúde e até espaços supervisionados de consumo, estratégias que salvam vidas e reduzem custos sociais.

O estudo também surge em um momento de contradição política nos Estados Unidos, onde o governo recuou de recomendações para reduzir o consumo de álcool, enquanto mantém a cannabis sob forte controle federal, apesar da crescente adesão da população ao uso medicinal e terapêutico.

Na avaliação dos pesquisadores, insistir em um modelo criado há mais de meio século não é apenas um erro técnico, mas um problema de saúde pública.

A mensagem é direta: enquanto a ciência avança, a legislação segue presa a um passado proibicionista que transforma pacientes em suspeitos, ignora dados concretos e perpetua um sistema que pune mais do que cuida. Para eles, alinhar as leis à realidade científica deixou de ser uma questão acadêmica e passou a ser uma urgência humanitária.

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