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Estudo clínico indica que cannabis medicinal reduz dor e insônia em pacientes com câncer de pâncreas

by Redação

Pesquisa apresentada no ASCO 2026 aponta melhora significativa dos sintomas e poucos efeitos colaterais, mas esbarra em barreiras regulatórias que ainda limitam o acesso à terapia

Um estudo clínico randomizado com pacientes com câncer de pâncreas em estágio avançado reforçou o potencial da cannabis medicinal como ferramenta eficaz para aliviar sintomas graves associados à doença, como dor, insônia e perda de apetite. A pesquisa, apresentada no ASCO Gastrointestinal Cancers Symposium 2026 e publicada na revista científica JCO Oncology Practice, também evidenciou a segurança do tratamento, com poucos efeitos adversos relatados.

O ensaio envolveu 32 pacientes, com idade mediana de 71 anos, diagnosticados com adenocarcinoma pancreático localmente avançado ou metastático e ao menos um sintoma considerado clinicamente relevante. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um com acesso imediato à cannabis medicinal entre a primeira e a oitava semana de acompanhamento, e outro com acesso tardio, apenas entre a nona e a 16ª semana, por meio do programa oficial de cannabis medicinal do estado de Minnesota, nos Estados Unidos.

Antes do início da intervenção, o quadro clínico dos participantes revelava a dimensão do sofrimento imposto pela doença. Insônia estava presente em 85% dos casos, dor em 77% e perda de apetite em 69%. Cerca de um terço dos pacientes fazia uso regular de opioides para controle da dor, uma classe de medicamentos associada a dependência e outros efeitos colaterais relevantes.

Após oito semanas, os resultados apontaram vantagem consistente para o grupo que teve acesso precoce à cannabis. Houve melhora da dor em 44% dos pacientes, contra 20% no grupo que aguardou. A perda de apetite diminuiu em 56% dos casos, frente a 30% no grupo controle, e a insônia apresentou redução em 67% dos pacientes, mais que o dobro do observado entre aqueles sem acesso imediato ao tratamento. Também foi registrada diminuição no uso de opioides entre os participantes que utilizaram cannabis.

Os efeitos colaterais, como boca seca, tontura e dificuldade de concentração, foram menos frequentes no grupo que iniciou o tratamento mais cedo. Segundo os autores, isso pode estar relacionado à orientação recebida pelos pacientes, baseada na estratégia de começar com doses baixas e aumentar gradualmente.

A maioria utilizou formulações orais, como comprimidos, e relatou que o uso da cannabis foi simples e viável dentro da rotina de tratamento oncológico. Em média, cada participante fez apenas duas visitas a dispensários autorizados durante o período do estudo.

Para os pesquisadores, os achados reforçam que a cannabis medicinal pode desempenhar papel relevante no cuidado paliativo e no manejo de sintomas em doenças graves. “O acesso precoce à cannabis medicinal foi associado à melhora de determinados sintomas, como a insônia, com danos mínimos”, escreveram os autores. Eles também destacaram que o modelo de parceria entre centros de pesquisa e programas públicos estaduais pode facilitar a produção de novas evidências científicas.

O estudo foi liderado por Dylan Zylla, do HealthPartners Institute Cancer Research Center, e contou com apoio filantrópico. Os produtos de cannabis foram fornecidos pela empresa Vireo Health.

Apesar dos resultados positivos, os próprios autores reconhecem limitações importantes, como o número reduzido de participantes, o curto período de acompanhamento e o fato de a pesquisa ter sido realizada em apenas um estado, com população predominantemente urbana e branca.

Ainda assim, o trabalho expõe um contraste cada vez mais evidente entre a literatura científica e as políticas públicas em vigor em muitos países. Enquanto dados clínicos se acumulam mostrando que a cannabis pode aliviar sofrimento, reduzir o uso de opioides e melhorar a qualidade de vida de pacientes oncológicos, o acesso continua condicionado a legislações restritivas, burocracia e estigmas herdados da guerra às drogas.

Na prática, isso significa que milhares de pessoas seguem privadas de uma alternativa terapêutica relativamente segura e potencialmente eficaz. Para especialistas e entidades médicas, manter essas barreiras não é apenas uma escolha regulatória, mas uma decisão que impacta diretamente o direito ao tratamento e à dignidade de pacientes em situação de extrema vulnerabilidade.

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