Estudo da Universidade de Bath defende modelo semelhante ao das doses padrão de álcool para reduzir riscos e apoiar políticas públicas baseadas em saúde, não em punição
Pesquisadores da Universidade de Bath, no Reino Unido, propuseram a criação de um sistema de “unidades de THC” para orientar um consumo mais seguro de cannabis, em iniciativa que busca oferecer informação objetiva a usuários, profissionais de saúde e gestores públicos. A ideia é semelhante ao que já existe com o álcool, cujas recomendações se baseiam em unidades padrão para reduzir danos associados ao consumo.
O trabalho, publicado na revista científica Addiction, sugere que o consumo semanal de adultos não ultrapasse 8 unidades de THC, o equivalente a cerca de 40 mg da substância ou aproximadamente um terço de grama de cannabis in natura. Segundo os autores, acima desse patamar aumenta de forma significativa o risco de desenvolvimento do transtorno por uso de cannabis.
Diferentemente das métricas tradicionais, baseadas apenas na frequência de uso ou no peso do produto, o modelo proposto considera a quantidade efetiva de THC, principal composto psicoativo da planta. A abordagem leva em conta tanto a potência quanto a dose consumida, oferecendo um parâmetro mais realista para compreender riscos e fazer escolhas informadas.
Os dados utilizados no estudo vêm do projeto CannTeen, conduzido pela University College London, que acompanhou durante um ano 150 usuários de cannabis, avaliando padrões de consumo e sintomas clínicos. Entre os participantes que consumiam abaixo de 8 unidades semanais, 80% não apresentavam sinais de transtorno. Já entre aqueles acima desse limite, cerca de 70% relataram sintomas compatíveis com o diagnóstico.
Para a pesquisadora Rachel Lees Thorne, uma das autoras do estudo, a proposta parte do princípio da redução de danos, e não da abstinência forçada. Segundo ela, embora a ausência total de consumo elimine riscos, a realidade mostra que milhões de pessoas usam cannabis, legalmente ou não, e precisam de ferramentas práticas para diminuir possíveis impactos negativos.
O professor Tom Freeman, que coordenou a pesquisa, afirma que a cannabis é uma das substâncias psicoativas mais consumidas no mundo, mas ainda carece de parâmetros claros e acessíveis para orientar o público. Ele defende que limites baseados em unidades de THC podem ser úteis tanto para campanhas de saúde pública quanto para acompanhamento clínico e avaliação de políticas regulatórias.
O estudo também reforça a importância da legalização regulada como instrumento para esse tipo de estratégia. Em mercados legais, é possível exigir rotulagem precisa, controle de qualidade e informação clara sobre a concentração de THC, algo inviável em contextos proibicionistas, onde o consumidor não sabe exatamente o que está usando nem em que quantidade.
No Canadá, por exemplo, especialistas já discutem a adoção oficial de uma “dose padrão” de cannabis nos rótulos dos produtos. O Centro Canadense para Uso de Substâncias e Dependência considera que o modelo desenvolvido pela equipe britânica pode servir de base para políticas públicas mais eficazes e transparentes.
Ao propor métricas objetivas, o estudo se soma a um movimento internacional que trata o uso de drogas como tema de saúde pública e educação, e não de repressão criminal. Em vez de apostar no medo e na punição, a pesquisa aponta para um caminho mais pragmático: oferecer informação, autonomia e condições reais para que as pessoas reduzam riscos, façam escolhas conscientes e sejam protegidas por políticas baseadas em evidências científicas.
