Estudo científico avalia molécula derivada da cannabis como alternativa a antibióticos na avicultura e reforça transição do país para um modelo regulado
O Marrocos deu mais um passo no processo de ampliação dos usos legais da cannabis ao anunciar o início de um estudo científico voltado à aplicação da planta na alimentação animal. A iniciativa integra os esforços do país para expandir o uso da cannabis nos setores agrícola e veterinário, rompendo com décadas de informalidade e proibição.
O anúncio foi feito pela Agência Marroquina de Regulação das Atividades Relacionadas à Cannabis, a ANRAC, após a assinatura de um acordo com o Instituto Agronômico e Veterinário Hassan II, sediado em Rabat. O objetivo é desenvolver um programa de pesquisa que avalie o uso de uma molécula derivada da cannabis como alternativa aos antibióticos promotores de crescimento na criação de aves.
Segundo a agência, o estudo pretende estabelecer protocolos claros para a incorporação dessa molécula à ração animal, etapa considerada fundamental para garantir a regulamentação adequada e o controle desse tipo de aplicação. O programa terá duração de dez meses e busca formular um insumo voltado especificamente para o setor avícola, com potencial de uso em escala industrial.
A pesquisa será conduzida pelo Departamento de Medicina Veterinária do instituto e irá analisar os efeitos da molécula da cannabis na saúde intestinal das aves, no fortalecimento do sistema imunológico e no aumento da produtividade na criação de frangos. Os pesquisadores também pretendem validar dados científicos que sustentem a adoção do composto como substituto eficaz aos antibióticos, contribuindo tanto para a eficiência produtiva quanto para a qualidade dos produtos avícolas.
O estudo se insere em um contexto mais amplo de reformas legais iniciadas em 2021, quando o Parlamento marroquino aprovou uma lei que autorizou o uso da cannabis para fins medicinais, cosméticos e industriais. O novo marco regulatório busca substituir um histórico de produção ilegal por um mercado controlado, transparente e integrado à economia formal.
Desde então, a ANRAC vem concedendo licenças a agricultores e empresas. Apenas em 2024, cerca de três mil autorizações foram emitidas para o cultivo e a produção legal de cannabis, um salto significativo em relação ao ano anterior. As permissões contemplam agricultores, cooperativas e operadores envolvidos em todas as etapas da cadeia, do plantio à comercialização.
O setor regulado já começa a apresentar resultados concretos, com produtos licenciados disponíveis no mercado, como cosméticos e suplementos alimentares. O governo marroquino defende que a regulamentação da cannabis tem potencial para impulsionar economias rurais, gerar empregos e retirar milhares de agricultores da ilegalidade.
Apesar dos avanços, o uso recreativo da cannabis segue proibido no país, e há críticas de que o modelo regulado ainda possa conviver com práticas ilegais. Ainda assim, iniciativas como a pesquisa na alimentação animal reforçam uma abordagem baseada em ciência, saúde pública e desenvolvimento econômico, mostrando como políticas menos proibicionistas podem abrir novos caminhos para a inovação e a sustentabilidade no campo.
