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Estudo aponta potencial antitumoral do canabidiol e reforça debate sobre uso medicinal da cannabis

by Redação

Revisão científica indica que o CBD pode atuar contra diferentes tipos de câncer e evidencia os limites impostos por décadas de proibição à pesquisa

O canabidiol (CBD), composto da cannabis que não provoca efeitos psicoativos, apresenta um potencial significativo como agente antitumoral, além de suas já conhecidas propriedades anti-inflamatórias. A conclusão é de uma nova revisão científica que analisou estudos sobre os efeitos do CBD em diversos tipos de câncer, incluindo alguns dos mais agressivos, como o glioblastoma, que atinge o cérebro.

Os pesquisadores observaram que o CBD pode ajudar a suprimir o crescimento e a disseminação de tumores em cânceres de mama, pulmão, colorretal, ovário e próstata, entre outros. Segundo a análise, o composto atua de forma ampla, interferindo em múltiplos mecanismos usados pelas células cancerígenas para sobreviver, se multiplicar e se espalhar pelo organismo.

A revisão, financiada pelo Fundo Nacional de Ciências Naturais da China, reuniu dados de estudos pré-clínicos que investigam como o CBD afeta sinais biológicos explorados pelo câncer, como estímulos de crescimento, respostas ao estresse celular e vias do sistema imunológico. Diferentemente de muitos fármacos convencionais, que miram um único alvo, o canabidiol parece agir de maneira integrada, desestabilizando vários processos ao mesmo tempo e levando as células tumorais ao colapso.

Em modelos de câncer colorretal, por exemplo, o CBD interfere no receptor GPR55, associado ao crescimento e à migração tumoral. Ao bloquear essa via, o composto enfraquece a capacidade de divisão rápida das células cancerígenas e, em alguns casos, aumenta a sensibilidade do tumor à quimioterapia. Já em estudos sobre câncer de pulmão e mama, os efeitos variam, mas incluem a redução do crescimento tumoral, a indução da morte celular programada e a ativação da autofagia, um processo interno que passa a agir de forma destrutiva contra a própria célula doente.

Os autores destacam ainda que o CBD, descrito como um composto bem tolerado e já aprovado para usos médicos específicos, também pode contribuir para o alívio de sintomas comuns em pacientes oncológicos, como dor e náusea. Apesar disso, reconhecem desafios importantes, como a baixa absorção do canabidiol quando administrado por via oral, o que limita a quantidade que efetivamente chega ao tecido tumoral. Para contornar esse problema, novas estratégias vêm sendo estudadas, incluindo sistemas de liberação baseados em nanopartículas.

O avanço desse campo, segundo os cientistas, depende de pesquisas mais detalhadas e de ensaios clínicos bem desenhados, capazes de confirmar se os efeitos observados em laboratório se traduzem em benefícios reais para pacientes. Ferramentas modernas, como o sequenciamento de célula única, podem ajudar a entender como diferentes tipos de tumor respondem ao CBD, especialmente quando ele é utilizado em conjunto com tratamentos tradicionais.

A revisão foi publicada na edição de dezembro de 2025 da revista científica Phytomedicine, ainda sem revisão por pares, e se soma a um conjunto crescente de evidências sobre o potencial terapêutico da cannabis. Em 2025, uma revisão publicada na Pharmacology & Therapeutics já havia indicado que canabinoides podem aumentar a eficácia da quimioterapia e reduzir seus efeitos colaterais. Outros estudos apontam melhorias significativas em sintomas relacionados ao câncer entre pacientes que utilizam cannabis medicinal.

Esses achados reforçam o contraste entre o avanço da ciência e as barreiras impostas por políticas proibicionistas, que historicamente dificultaram o financiamento, a condução e a aplicação clínica de pesquisas com a cannabis. Para especialistas e defensores da saúde baseada em evidências, o acúmulo de dados sobre o CBD evidencia a urgência de marcos regulatórios mais racionais, que priorizem o direito ao tratamento, a autonomia médica e o acesso dos pacientes a terapias potencialmente benéficas.

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