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Da guerra às drogas ao cuidado: a trajetória de Renato Blumenthal e a cannabis como caminho de recuperação

by Redação

Após 19 anos de dependência química e cinco internações sem sucesso, Renato transforma a própria história em ferramenta de redução de danos e mostra como o tratamento com cannabis medicinal pode ser uma alternativa real de cuidado, dignidade e superação.

Renato Blumenthal tinha apenas 14 anos quando começou a usar crack. A adolescência, fase que deveria ser marcada por descobertas e proteção, foi atravessada precocemente pela violência do proibicionismo e pela ausência de políticas públicas de cuidado. “Comecei a usar crack com 14 anos e logo fiquei viciado”, conta. Aos 17, o consumo de cocaína se somou à rotina já desestruturada. “Larguei os estudos e ficava o dia todo na rua, usando.”

Renato antes do tratamento

Durante 19 anos, Renato viveu o que milhares de pessoas em situação de dependência química conhecem bem: exclusão social, estigmatização e sobrevivência à margem. Para sustentar o uso, vendeu tudo o que possuía, foi explorado, atuou como “aviãozinho” e enfrentou situações extremas. “Já cheguei a vender para usar, me prostituir, fazer aviãozinho. Fiz de tudo para continuar usando”, relembra.

Nesse período, Renato passou por cinco internações, todas sem sucesso. “As internações não resolveram o meu problema”, afirma. A lógica da abstinência compulsória, sem olhar para o contexto social, emocional e psicológico, apenas reforçava ciclos de recaída. “Eu não precisava ser punido, precisava de cuidado. Mas isso eu só fui entender depois.”

A virada começou quando Renato passou a enxergar a dependência química como uma questão de saúde e não como falha moral. Hoje, aos 34 anos, ele construiu uma trajetória que rompe com o estigma imposto a pessoas diagnosticadas com transtornos relacionados ao uso de substâncias. É bacharel em Publicidade e Propaganda, formado no curso terapêutico da cannabis sativa da Unifesp e possui dois cursos pela Febract: Plano de Prevenção à Recaída (PPR) e Manejo da Recaída.

“Eu precisei estudar para entender o que eu vivi”, explica. O conhecimento técnico se tornou parte fundamental do processo de reconstrução da própria vida — e também da forma como Renato passou a ajudar outras pessoas.

Renato atualmente

O ponto central dessa mudança foi o tratamento com cannabis medicinal, realizado dentro da legalidade e com acompanhamento médico. “Hoje estou limpo há um ano e oito meses graças ao tratamento com cannabis”, afirma. Renato utiliza óleo full spectrum e vaporização, sempre com prescrição médica, laudo e acompanhamento profissional. “Tudo certinho, dentro da lei.”

Ele possui Habeas Corpus que autoriza o cultivo da cannabis para fins terapêuticos, voltado ao tratamento da dependência química (CID F19) e do Transtorno de Ansiedade Generalizada (CID F41). Para Renato, o acesso à planta representou mais do que um tratamento: foi uma ferramenta de autonomia e estabilidade. “A cannabis me ajudou a controlar a ansiedade, reduzir a compulsão e reorganizar a minha vida.”

Atualmente, Renato atua como consultor canábico e no acolhimento da associação Viva Cannabis, além de produzir conteúdos em suas redes sociais, especialmente no Instagram, onde fala abertamente sobre dependência química, redução de danos e o cotidiano de uma pessoa adicta em recuperação. “Eu falo da realidade, sem romantizar e sem criminalizar. Redução de danos é sobre preservar vidas”, afirma.

Além do trabalho de acolhimento, Renato também realiza palestras e participa de rodas de conversa sobre políticas de drogas, saúde mental e o uso da cannabis como alternativa terapêutica. Sua história se tornou instrumento político e social, confrontando diretamente o discurso proibicionista. “A guerra às drogas não salvou a minha vida. O cuidado salvou”, diz.

Para ele, o proibicionismo apenas empurra pessoas para a marginalidade, enquanto alternativas baseadas em ciência, direitos humanos e redução de danos oferecem caminhos reais de transformação. “Se eu tivesse tido acesso a tratamento, informação e acolhimento antes, talvez não tivesse perdido 19 anos da minha vida”, reflete.

Hoje, Renato ressignifica o passado ao usar a própria trajetória como ferramenta de escuta e orientação. “Eu não posso mudar o que vivi, mas posso fazer com que a minha história ajude outras pessoas a não passarem pelo que eu passei”, conclui.

A história de Renato Blumenthal evidencia que superar a dependência química não é resultado de repressão ou punição, mas de acesso à saúde, à informação e a políticas públicas que reconheçam a dignidade das pessoas que usam drogas. Em um país ainda marcado pelo proibicionismo, sua trajetória aponta que cuidar é mais eficaz do que criminalizar.

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